The Bunker é um jogo de terror live-action (o antigo e famoso FMV) para Nintendo Switch produzido pela Splendy Games e publicado pela Wales Interactive, que nos enviou uma cópia para review na versão do portátil da Nintendo lançada em 2018.

O jogo funciona como um filme interativo se passando num mundo pós-guerra nuclear, onde a Inglaterra ficou inabitável e comunidades se formaram dentro de bunkers. Controlamos John (Adam Brown, O Hobbit), o último sobrevivente de um dos locais, que viveu por toda a vida debaixo da terra, e agora a única coisa capaz de manter sua sanidade é a sua rotina. Quando um alarme soa, imprevistos obrigam John a visitar áreas que não ia há muito tempo, o que acaba desbloqueando lembranças de um passado conturbado. Através de flashbacks, conhecemos melhor os personagens e a decadência do bunker, enquanto lidamos com a sanidade de John.

John interpretado por Adam Brown

Não é muito comum termos jogos inteiros sendo lançados em FMV (Full Motion Vídeo). Para os fãs de clássicos como Night Trap, Phantasmagoria, e o mais recente Her Story, é incrível ver que novas produções conseguem entregar experiências tão interessantes, numa qualidade excepcional para uma produção independente. Existem destaques por todos os lados, seja pelas atuações incríveis de Sarah Greene (Penny Dreadful) no papel de mãe, o comandante do bunker interpretado por Grahame Fox (Dark Souls III, GoT), ou na cenografia desoladora recriando diferentes cenários abandonados. A trilha sonora remete aos sintetizadores de John Carpenter e a história é roteirizada por talentos responsáveis por The Witcher, Broken Sword e SOMA, um dos meus survival horrors favoritos.

O jogo intercala cenas de diálogo e ação com momentos de interação e quick time events. Você passará um bom tempo assistindo diálogos (com legendas em diferentes idiomas, menos português) e fazendo pequenas tarefas de rotina. Com o tempo, você realizará algumas ações mais elaboradas que envolvem atenção, assim como alguns quebra-cabeças. Essa necessidade de ação torna a experiência mais imersiva, pois você sente a monotonia da rotina sendo quebrada por imprevistos, e a instabilidade do personagem em lidar com desafios físicos e psicológicos. É recomendável jogar no modo tablet, pois os pontos de interação respondem ao touch na tela, dispensando controles físicos, e isso dá agilidade em momentos decisivos de vida ou morte. Jogando no modo TV, é possível controlar um ponteiro analógico de interação, mas isso acaba tornando a experiência muito mais lenta, além dos Joy-Cons não utilizarem o HD Rumble como deveria.

Outra vantagem do modo tablet é a possibilidade de utilizar fones de ouvido. O jogo recomenda esse modo para uma imersão completa, e a qualidade de produção realmente faz valer a pena. Além das músicas tensas de ambientação, você vai entender melhor como o protagonista escuta certos barulhos assustadores, e se questiona se são frutos da imaginação, efeito colateral da possível radiação, ou se existe uma ameaça real te esperando no andar de baixo.

Como único sobrevivente, lidar com a rotina de John se torna algo bastante assustador. Não se sabe como está a radiação lá fora, e sua mãe o instruiu a seguir sempre a mesma rotina para sobreviver. Qualquer coisa que fuja dessa realidade traz a tona um medo existencial e uma ansiedade diante do desconhecido. Através de fotos, cartas, anotações e relatórios, conhecemos melhor a história dos antigos habitantes do Bunker, e essa forma de relato, junto com a visão através das câmeras de segurança, aumentam o senso de isolamento do personagem. Seus únicos amigos são pequenos bonecos de madeira, esculpidos ao longo da infância, no qual você pode coletar em pontos escondidos nos cenários. Conforme sua rotina é quebrada, John precisa realizar procedimentos de manutenção incomuns, e visitar partes do Bunker que armazenam memórias difíceis de lidar.

Cada andar do bunker possui uma função e uma parte importante na história, e quanto mais profundo descemos, mais segredos são revelados das memórias de John. Com o tempo, a verdadeira pergunta não é o que aconteceu lá fora, mas sim o que aconteceu lá dentro. Será que as pessoas morreram mesmo de radiação? E onde estão os corpos? Essas e outras perguntas são respondidas através de flashbacks da infância de John, que vão sendo montados como um quebra-cabeça. O jogador precisa apenas estar alerta de que parte das informações vem através de documentos, e demanda uma boa quantidade de leitura em inglês.

Os conflitos são o que realmente prendem a atenção no jogo. Aos poucos, os problemas se acumulam, e John precisa lidar com isso da melhor forma possível. É importante notar que esses anos todos realmente moldaram sua personalidade, dando um ar meio infantil nas suas escolhas e atitudes. Infelizmente, o jogo sofre um pouco com a falta de interações mais profundas e bifurcações, ou seja, variações de possibilidades e alternância de sequências. No final você perceberá que andou numa linha reta, com poucos desvios, resultando num mesmo caminho.

Com um pouco mais de 2 horas de duração, o jogo te entrega uma história cheia de suspense, ótimas atuações, e sequências simples de quebra-cabeça. Possui loadings rápidos, servindo como uma excelente introdução a jogos interativos feitos com FMVs, além das cenas de terror psicológico e imersão no isolamento. O desfecho do jogo pode decepcionar as pessoas pois não entrega todas as respostas, mas a jornada até as últimas consequências traz reviravoltas interessantes num grande ensaio sobre a sobrevivência, e o que as pessoas são capazes de fazer em situações extremas.

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