Lançamento da coleção “Medo Clássico” da DarkSide Books, o livro Frankenstein foi escrito pela autora Mary Shelley e publicado originalmente em 1818. Depois, foi republicado com uma revisão em 1831, versão que foi traduzida pela editora. Vamos falar de um clássico da ficção científica e terror na literatura mundial.

A primeira coisa a se fazer é esquecer de tudo que se aprendeu com os filmes e a cultura pop, pois a obra original se distancia muito daquela imagem. Não existe confusão com o nome Frankenstein, pois o grande protagonista é mesmo o cientista. O monstro que ele cria é chamado de outras coisas, como demônio, criatura, ser desprezível, abominação, entre outras referências depreciativas.

A história é toda contata através de relatos, cartas com datas e destinatários. O livro começa com o Capitão Robert Walton enviando uma carta para sua irmã Margaret. Walton é um escritor mal sucedido, e parte para explorar o polo norte com a intenção de expandir seu conhecimento científico e conquistar a fama. No momento da viagem onde precisa enfrentar grandes geleiras, sua equipe avista uma figura gigante num trenó puxado por cachorros, e horas depois, resgatam um homem que se auto denomina Victor Frankenstein.

A partir daí, Victor começa a narrar toda a sua trajetória, desde a origem de sua família, até as experiências da infância, seu amor por sua irmã adotada Elizabeth, a origem do seu interesse pelas filosofias naturais, seu ingresso na faculdade, e finalmente a criação do monstro. É um aprofundamento bastante suficiente para ficarmos íntimos com o protagonista.

São capítulos e capítulos desenvolvendo a personalidade e a história acadêmica de Frankenstein, sua relação com os professores, e muitas referências de nomes da ciência que estavam em evidência na época. Essa nova tradução traz uma linguagem mais próxima também do momento histórico, com inúmeras palavras para serem aprendidas.

O livro é repleto de extras, e inclui ambos os prefácios de 18 e 31, com muitas informações nas notas de rodapé, indicando mudanças entre as edições, e também contendo explicações sobre a geografia do local na época. Isso ajuda a contextualizar certis acontecimentos do século XX e XIX, e as referências de outras obras, livros que influenciaram a autora e são citados. As notas também indicam publicações brasileiras pra você procurar esses livros depois por aqui, caso esteja disponível.

A maioria dos leitoras não vai estar acostumado a linguagem clássica da época, algo um tanto pesado, com muitos adjetivos e longas descrições. Isso fica evidente com as longas viagens do personagem, onde a autora tenta descrever a experiência dessas jornadas com muitas descrições, acontecimentos históricos, ambientação, que exibem o vasto conhecimento da autora e nos faz sentir o senso de passagem de tempo. Apesar dos capítulos curtos, a leitura se torna densa em certos momentos.

Isso reflete também nos diálogos, por que são muito poéticos, cheios de adjetivos, com uma certa cadência, sonoridade, como se fossem declamados, prolongando sua reflexão.

Pintura da autora Mary Shelley

Agora, muito diferente do cinema, Frankenstein não retrata a origem do monstro. Não descreve o processo que o levou a criá-lo, ou o segredo que lhe trouxe a vida. Ele simplesmente diz para o leitor que nunca compartilhará tal segredo, com medo de que a desgraça caia sob outras pessoas. O monstro nasce de forma muito rápida e simples, e fica por nossa conta toda a imaginação.

O monstro também difere no nível de inteligente. É rebuscado com argumentos racionais, desenvolvendo uma linguagem culta. Ele é realmente um super humano, alto, que aguenta o frio e o calor, a fome, e possui super força, mas carrega a sina de ser deformado e extremamente feio. Numa parte do livro, temos a construção do caráter do monstro, baseado em seu longo relato sobre a sociedade que o cerca. Como aprendeu a entender o que o rodeava, e também a linguagem. Encontrou suas próprias motivações e dilemas.

Naturalmente, ele é uma criatura pura, sem malícia, com tendências pacíficas, mas se torna extremamente solitário ao ser hostilizado pela sua aparência de monstro, e por se sentir o único de sua espécie. Durante essa construção, a autora ainda encontra espaço para criticar as diferentes crenças, como a sociedade limitava a mulher, e também ao islamismo.

O livro é cercado de dualidades, contrastes pra destacar as características de cada personalidade. Enquanto o Dr. Frankenstein está triste e sofrendo com medo da criatura, seu amigo Clerval está feliz e motivado para prosseguir na jornada. Frankenstein prefere sempre se isolar e guardar todos os segredos para si mesmo, colocando pessoas em perigo, enquanto o Monstro quer se relacionar com a sociedade, conversar, dividir sua história e ajudar. O monstro apenas não quer se sentir sozinho, e deseja conversar com seu criador. Esse é o conflito central que move a maior parte do livro.

É uma experiência de vingança, ameaça, e muito suspense. Apesar disso, as cenas de ação são fracas, rápidas, pouco criativas e muito parecidas, sem violência explícita, onde a autora deu muito mais foco no próprio suspense que as antecede, e depois nas consequências.

Algumas imagens que se destacam é a utilização do mar, a tranquilidade do barco, o isolamento ao se cercar pelas águas, em raros momento de paz e respiro. Há também a dúvida, em certos momentos, se o monstro é real ou não. Uma das passagens mais emocionantes é quando o monstro conversa com um homem cego.

Ao final do livro você entende que o verdadeiro monstro é o próprio Frankenstein, devido a sua ambição inconsequente e egoísmo, disfarçando seus defeitos em motivações nobres. Tenta proteger pessoas próximas, mas negligencia o aviso e não é realista com os perigos que os cercam, e assim não se coloca no lugar das outras pessoas.

O final é triste e inevitável, e possui diversas mensagens que influenciaram a literatura através dos tempos. Ao publicar um livro desses com pouca idade, a autora Mary Shelley provavelmente despertou inveja de muitos autores. Além dos prefácios e do livro em si, temos também a resenha feita pelo marido, Percy Shelley, e uma rápida biografia explicando sua produção literária. A edição inclui quatro contos da própria autora, espalhados em quase 50 páginas, que abordam assuntos relacionados a imortalidade.

Por último é preciso destacara as ilustrações do artista Pedro Franz, a diagramação e arte presentes no livro, desde a capa até a tipografia. São 300 páginas de letras pequenas, muito conteúdo, numa publicação que pode ser considerada a versão definitiva (em português brasileiro) desse livro. Dê de presente pra quem ama terror clássico, a literatura de terror, pois dificilmente outra edição conseguirá superar essa publicação nos próximos anos.

Frankenstein, de Mary Shelley | Crítica em Vídeo, DarkSide Books

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