Detention é um adventure point-and-click de terror atmosférico com elementos de survival horror e gráficos 2D, e forte influência em crenças asiáticas (budismo, taoismo), lançado originalmente em janeiro de 2017. Um ano depois ganhou uma adaptação para Nintendo Switch, e recebemos uma cópia da publisher Coconut Island Games para a resenha. É um jogo indie mais do que especial, que iniciará nossa série de críticas de jogos de terror para o console da Nintendo.

A história se passa na década de 60, durante um dos períodos mais violentos da ditadura em Taiwan, conhecido como Terror Branco, onde dois estudantes ficam presos na escola devido a aproximação de um tufão. Ao procurar por suprimentos, ambos são transportados para uma versão sobrenatural do mesmo lugar, revelando fragmentos de uma história muito mais sombria do que se imagina.

Detention te leva para uma versão fragmentada de uma escola asiática, ambientada na percepção distorcida dos próprios estudantes, que vivem sob um regime militar sangrento. Muitos livros são proibidos, pessoas desaparecem, e tudo é controlado pelo governo. Em paralelo, muitos costumes religiosos são empregados para aliviar a rotina de um país isolado pelos próprios muros culturais. É sob esse clima de apreensão que as cenas de horror são construídas, passo a passo.

Ao entrar na versão sombria daquele universo, começamos a entender suas próprias regras. Somos transportados para outros momentos e locais da história, que representam bem a desorientação da linha temporal, mas que aos poucos se conectam na nossa cabeça. A atmosfera lembra survivals asiáticos clássicos como Silent Hill e Forbidden Siren, mas utiliza os recursos da época de forma bastante única, como os costumes, tecnologia e cultura.

É recomendável utilizar fones de ouvido, pois a sonoplastia e trilha sonora contribuem para a imersão da narrativa, moldadas brilhantemente pelo compositor Weifan Chang. Instrumentos asiáticos tradicionais se misturam com rock, música eletrônica e músicas regionais da época. Através dos gritos e barulhos distantes, é possível antecipar ameaças, além de aumentar a tensão e entender o peso de cada escolha, conflito e diálogo.

Visualmente, o jogo usa um estilo próprio de animação 2D, com elementos em 3D feitos em camadas, que na versão do Switch funciona muito bem sem problemas de framerate. Diferentes versões do cenário são utilizadas para mostrar a passagem de tempo e do real para o sobrenatural. Com o avanço da história, são usadas técnicas de colagem, manipulações, vídeos reais, e cenários super coloridos contrastando com cenários monocromáticos, lembrando um pouco do estilo usado pelo aclamado The Cat Lady.

Você caminha utilizando o direcional, e quando um ponto de interesse surge, utiliza um botão de ação para interagir, se tornando até mais natural do que usar um mouse como no PC. Infelizmente o jogo não utiliza a função HD Rumble do Nintendo Switch, que casaria perfeitamente com o som. Confirmar uma ação é um pouco diferente (círculo achatado para confirmar, X para cancelar), assim como nos consoles orientais.

Parte dos quebra-cabeças segue temas religiosos, dando mais informações sobre aqueles costumes, e salvar o jogo envolve rezar em pequenos altares. Ele também utiliza elementos da própria história, que no momento da solução entrega revelações para o enredo de forma impactante. Algumas soluções não são convencionais, possíveis apenas num mundo de pesadelo, mas que utilizam poucos elementos e deixam você tirar suas próprias conclusões.

Os monstros do jogo são conhecidos como The Lingered, e rondam os corredores da escola. Para passar por eles é necessário oferecer algo, ou virar as costas, e sempre prender a respiração, o que aumenta a tensão nos momentos de confronto. Não se pode matá-los, apenas evitá-los, e eles possuem um significado próprio no enredo. Morrer também não é tão penalizante, te trazendo de volta para o ponto em que você salvou com todo o progresso até o momento da morte.

Até o final da história, você conhecerá uma realidade de opressão, os horrores da intervenção militar, do lar desfeito, dos desejos juvenis, da paranoia e das consequências das próprias escolhas. Foi muito difícil largar o console pois a narrativa de Detention prende como um livro (prepare-se para ler) ou um filme de terror psicológico, e na portabilidade o Nintendo Switch leva vantagem. É chocante, poético, de construção incrível dos personagens, com um desfecho real e melancólico. Após concluí-lo, é possível jogar novamente para reconectar os detalhes que você deixou passar, e pegar todos os documentos para fazer o final “verdadeiro”.

Detention | Mais Informações

Detention Game Launch Trailer