No filme de terror Cadáver (The Possession of Hannah Grace) temos um ritual de exorcismo que sai de controle e ceifa a vida de uma jovem. Meses depois, seu cadáver desfigurado é recebido por Megan Reed, uma policial que trocou de profissão para trabalhar no necrotério de um hospital no turno da noite. Sozinha com o corpo, eventos sinistros fazem com que ela acredite que ele ainda está possuído por forças do além.

O que acontece com o corpo depois que a pessoa perde a luta para o demônio? Os espíritos continuam no corpo, passam para outra pessoa ou vão embora? Esse é um conceito excelente que foi pouco explorado no sub-gênero de exorcismo, e é abordado na possessão de Hannah Grace.

É por isso que o filme abre com um ritual de exorcismo clássico: Uma garota amarrada na cama, dois padres rezando em latim e o pai tentando ajudar o processo. Já vimos esse tipo de cena antes, mas aqui a função é só mostrar a origem do cadáver, nada surpreendente.

Em seguida somos apresentados a protagonista do filme, também clássica. Ex-policial com um passado conturbado e assombrado por ele. Tudo parece seguir uma receita de bolo hollywoodiana: Para mostrar que ela é forte, ela luta boxe; Pra mostrar que ela tem conflitos internos, deram um vício em remédios; Para aproveitar que ela é bonita e precisa de um interesse romântico, deram um namorado policial bonitão.

Em seu primeiro dia de trabalho no turno da noite, um especialista do necrotério a ensina em 3 minutos todos os processos, locais e possibilidades. Isso acaba entregando a maior parte do filme, ao invés de espaçar as informações de forma menos corrida ao longo da história.

Os personagens secundários são quadradões, sem camadas e sem interesses, apenas querem fazer o seu trabalho. O enredo nem tenta fazer com que gostemos deles, mesmo que um ou outro trouxesse alguma informação pessoal que não serviu para a história.

O resultado dessa falta de densidade, e a pressa de explicar tudo no início, é um filme com muito silêncio e cenas muitas cenas lentas, sem oportunidade para trilha sonora ou qualquer coisa mais interessante. Os jumpscares começam a aparecer de forma aleatória e gratuita, e como o silêncio se mantém constante, sempre temos uma oportunidade para nos assustar com barulhos altos.

A atividade sobrenatural vai fazendo suas primeiras vítimas, mas as consequências não refletem em nada para a trajetória da protagonista. É apenas uma listinha de personagens que o diretor vai riscando.

Outra inconsistência é na reta final, onde temos o embate da protagonista com o sobrenatural e muitos efeitos de computador que tiram a imersão do filme, com cenas mal montadas onde tudo acontece tropeçando.

A forma com que a protagonista supera seu conflito interno para resolver o conflito externo, como manda a receita, é 100% artificial. Temos ainda alguns flashbacks da cena inicial para poder explicar coisas já explicadas, e ficamos com o maior furo do filme na cabeça:

Desde a primeira morte do necrotério o demônio é capaz de coisas sobrenaturais superpoderosas, como levitar sua vítima do chão igual o Darth Vader. Por que não simplesmente matar todo mundo em 10 minutos?

A cena final é talvez a parte mais covarde do roteiro, que não tentou inovar, explorar conceitos, fez apenas o básico com o que foi dado, e entregou uma versão enlatada americana de possessão.